sábado, 20 de dezembro de 2008

O Homem que não Dorme



Poema de Charles Péguy, poeta francês (1873-1914):

Não me agrada o homem que não dorme
e que arde em sua cama de preocupação e febre

Não me agrada o homem que ao se deitar
faz planos para o dia seguinte,
o tonto!

Sabe ele por acaso
como se apresentará o dia seguinte?
Sabe sequer a cor do tempo que vai fazer?
Faria melhor em rezar.

Porque eu nunca neguei o pão de cada dia
ao que se abandona em minhas mãos
como o bastão na mão do caminhante

Me agrada o que se abandona em meus braços
como um bebê que ri
e que não se preocupa com nada
e vê o mundo através dos olhos de sua mãe.

Mas o que se põe a fazer cavilações
para o dia de amanhã,
este trabalha como um mercenário,
trabalha terrivelmente como um escravo
que dá voltas a uma roda sem fim
e -- isto entre nós -- é um imbecil.

E até me disseram que existem homens
que trabalham bem
e dormem mal,
que não dormem nada.
Que falta de confiança em mim!

Isto é quase mais grave do que se trabalhassem mal
e dormissem bem,
porque a preguiça
é um pecado menor do que a inquietude, do que a desesperação
e do que a falta de confiança em mim.

Governam muito bem durante o dia
os assuntos do dia e depois não se atrevem
a confiá-los a mim durante a noite.

O que não dorme de preocupação
é infiel à Esperança,
e esta é a pior infidelidade.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Redescobrindo o próprio batismo

No dia 29 de outubro de 2006 estávamos nós, as 1ªs comunidades das paróquias Imaculada Conceição em Caconde, Santa Isabel em São Carlos, e Santa Margarida Maria em São Paulo, na Praça de São Pedro, onde ouvimos o discurso do Ângelus de Bento XVI. Por misericórdia de Deus, seu discurso parecia dirigido especialmente a nós, de tal forma recordava o que estávamos lá vivendo e testemunhando, de tantos anos vividos no Caminho Neocatecumenal.

O Papa comentou o encontro do cego Bartimeu com Jesus Cristo:

No Evangelho deste Domingo (Mc 10, 46-52) lemos que, enquanto o Senhor passa pelas estradas de Jericó, um cego chamado Bartimeu se dirige a Ele gritando: "Filho de David, Jesus, tende piedade de mim!". Esta oração comove o coração de Cristo, que pára, o manda chamar e o cura.

O momento decisivo foi o encontro pessoal, directo, entre o Senhor e aquele homem que sofre. Encontram-se um diante do outro: Deus com a sua vontade de curar e o homem com o seu desejo de ser curado. Duas liberdades, duas vontades convergentes: "Que queres que Eu te faça?", pergunta o Senhor. "Que eu recupere a vista!", responde o cego. "Vai, a tua fé te salvou". Com estas palavras realiza-se o milagre. Alegria de Deus, alegria do homem. E Bartimeu, vindo à luz narra o Evangelho "começou a segui-lo no seu caminho": isto é, torna-se um discípulo e sobe com o Mestre a Jerusalém, para participar com Ele no grande mistério da salvação. Esta narração, na essência da sua sucessão, recorda o itinerário do catecúmeno rumo ao Sacramento do Baptismo, que na Igreja era também chamado "iluminação".

Depois, Bento XVI referiu às novas propostas de evangelização para adultos:

A fé é um caminho de iluminação: parte da humildade de se reconhecer necessitados de salvação e chega ao encontro pessoal com Cristo, que chama a segui-l'O pelo caminho do amor. Sobre este modelo se orientam na Igreja os itinerários de iniciação cristã, que preparam para os sacramentos do Baptismo, da Confirmação (ou Crisma) e da Eucaristia. Nos lugares de antiga evangelização, onde está difundido o Baptismo das crianças, são propostas aos jovens e aos adultos experiências de catequese e de espiritualidade que permitem percorrer um caminho de redescoberta da fé de maneira madura e consciente, para assumir depois um coerente compromisso de testemunho.

Como é importante o trabalho que os Pastores e os catequistas realizam neste campo! A redescoberta do valor do próprio Baptismo está na base do compromisso missionário de cada cristão, porque vemos no Evangelho que quem se deixa fascinar por Cristo não pode viver sem dar testemunho da alegria de seguir os seus passos. Neste mês de Outubro, compreendemos ainda mais que, precisamente em virtude do Baptismo, possuímos uma vocação missionária conatural.

Ao final do Ângelus, o Papa dirigiu-nos uma saudação especial:

Uma saudação afectuosa aos grupos brasileiros das paróquias Imaculada Conceição em Caconde, Santa Isabel em São Carlos, e Santa Margarida Maria em São Paulo, e demais peregrinos de língua portuguesa, sobre cujos passos e compromissos cristãos imploro, pela intercessão da Virgem Mãe, a benevolência divina: deixai Cristo tomar posse da vossa vida, para serdes cada vez mais vida e presença de Cristo!




sábado, 13 de dezembro de 2008

Um trabalho em andamento (III)



Graças ao Senhor! Praça de São Pedro - Roma

Esta foto foi tirada em Roma, no interior do ônibus, quando nos dirigíamos à Praça de São Pedro, onde assistiríamos ao Ângelus com Bento XVI, dia 29-10-2006.

Foi uma manhã maravilhosa e ensolarada, que fazia resplandecer mais forte a beleza do Vaticano e da Praça de São Pedro. Todos nos alegramos, tiramos fotos, etc... Foi um momento de júbilo, em que se fizeram presentes todos estes anos de Caminho Neocatecumenal, com suas alegrias e tristezas compartilhadas, vitórias e sofrimentos.

Chegar até lá foi realmente um dom de Deus, que tantas vezes abriu o Mar Vermelho diante de nós, fazendo com que vencêssemos o medo da morte e do sofrimento, que nos abríssemos à vida, libertando-nos tantas vezes do nosso egoísmo.

Com fotos tiradas neste dia, fiz um vídeo, tendo com fundo musical o canto Graças a Iahweh! - Sl 136 (135).


Para saber mais sobre esta série, clicar aqui.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Construindo (e Reconstruindo) a Igreja (IV)

A primeira mensagem é a da unidade e universalidade, a qual deriva do Evangelho que aqui nos impressionou. Quantas coisas tal mensagem nos obrigaria a recordar! o suficiente para ouvir, nem mesmo um eco, mas uma repetição tornada simples como uma fórmula verbal, mas extremamente realista e desafiadora, ressonante na palavra extrema e comovente de Cristo, na iminência de sua paixão: "que todos sejamos um" (cf Jo 17,11; etc.). Que esta palavra testamentária do Senhor ecoe sempre. Que se torne trombeta estridulante para todos os povos; que chame a todos os que tiverem o ouvido do espírito atento à chamada divina. Que seja oferecida como um jogo amoroso do Senhor, um colóquio com ele. Escutar é aqui a primeira forma de oração, de expressão espiritual sincera, disposta a o enxertar o que ouve no desígnio do interlocutor divino.

E, em seguida, a segunda mensagem, aquela relativa à construção; a construção da Igreja, que Cristo mesmo opera na história; uma construção que para nós, filhos do tempo, está, se podemos dizer, sempre no princípio. Todo o trabalho realizado nos séculos que nos precederam não está isento da colaboração com o divino construtor, senão que nos chama, e não apenas a um fiel trabalho de conservação, e nem mesmo de passivo tradicionalismo, nem de hostil refutação à perene inovação da vida humana; convida-nos a recomeçar de novo, atentos sim, e custódios ciumentos do que a autêntica história da Igreja acumulou para esta e para as futuras gerações, mas conscientes de que o edifício, até os últimos dias, requer trabalho novo, requer construção fatigosa, fresca, genial, como se a Igreja, o divino edifício, devesse iniciar hoje sua aventurosa subida às alturas do céu (cf. 1Cor 3,10; 1Pd 2,5). Que sacudamos a fadiga, a preguiça, a desconfiança, o autolesionismo da contestação sistemática, e com frescor juvenil, com audácia genial, com humilde, grande fidelidade, tentemos interpretar nas necessidades da sociedade o projeto que Cristo, o edificador, prepara para os seus.

Sejamos nós dos seus. Com nossa Bênção Apóstólica.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Construindo (e Reconstruindo) a Igreja (III)

Conforme já expliquei no início desta série, transcrevo nesta postagem a primeira parte da primeira alocução de Paulo VI . Aqui Paulo VI se refere inicialmente à palavra que Cristo disse a Pedro: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16,18), e convida os ouvintes a descobrir a grandeza de serem Igreja:

Vós, que viestes visitar e venerar a sede do humilde sucessor do Apóstolo, Simão, filho de Jonas, pelo próprio Cristo chamado Pedro, qual palavra, qual profecia, qual destino histórico estais buscando, não apenas no local de seu túmulo, mas no troféu espiritual que aqui glorifica sua memória e simboliza a missão espiritual? Não sentiste reviver em vossa alma precisamente a promessa que Jesus transmitiu ao Apóstolo, quando lhe disse: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16,18)? Palavra fatídica, que aqui parece adquirir um significado sensível, e que não cessaremos mais de meditar, repercutem como parece ser, não puramente sobre o edifício no qual nos encontramos escrutando, admirando e rezando, mas sobre a instituição, que aqui tem seu ponto cardeal e seu coração, e que a todos nos envolve, e revela nosso nome, comuníssimo e mais do que nunca misterioso: nós, nós somos Igreja, a Igreja, o corpo histórico, visível e ao mesmo tempo espiritual e transcendente ao nosso cenário histórico, o Corpo místico de Cristo! Para este lugar abençoado, para este momento privilegiado, o anúncio messiânico e divino foi pronunciado e proclamado: "Eu, Eu Jesus o Cristo, Filho do Deus vivente, edificarei minha Igreja".

Temos todos de ouvir, repensar, e na medida do possível, compreender. Tomemos por hora um vocábulo: "Eu, o Senhor (cf Is 9,4-6), edificarei...". Edificar, o que isto significa? Significa construir, tomar material informe e disperso, e, conservando sua estrutura essencial, modelá-lo, uní-lo, compaginá-lo em um plano arquitetônico, e conferir-lhe a utilidade e a dignidade de um único desenho, refletindo um pensamento, uma finalidade, uma beleza, que é a de todos os componentes materiais individuais, e de todo o mesmo edifício. Esta é a idéia de Cristo acerca da humanidade, acerca do reino de Deus, acerca da construção. Este é o reino de Deus, de cujo Evangelho porta o anúncio, esta é a Igreja, que Cristo diz "minha", esta é a humanidade permeada pelo desenho da salvação. Esta é a chave para a inteligência da Escritura: leia-se a história de Abraão (cf Gn 12,3; Gl 3,8ss); a história de Israel (Gl 6,15-16; Rm 9; etc.); a história da Igreja nascente (At 11,17-18; etc.); este é o pensamento divino operante na história da humanidade, e no segredo da alma, que escuta o Mestre interior. Mas não é o caso. Recolhamos ao invés a dúplice mensagem, que se faz nossa, de cada um, e cheia de energia confortante.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Dia histórico na CCJ

O Projeto de Lei 1135/91, que modifica o Código Penal (Decreto-Lei 2.848/40) para suprimir a criminalização do aborto (na prática a legalização do aborto no Brasil) foi derrotado em votação histórica na Comissão de Seguridade Social e Família. Depois que os deputados favoráveis (à descriminalização) se retiraram do Plenário, o resultado foi 33 x 0 em favor da vida. Uma das razões para essa grande vitória foi a mobilização das bases, manifestando-se junto aos deputados de seu Estado.

Posteriormente, o projeto foi rejeitado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). A comissão acolheu o parecer do relator, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que considerou a proposta inconstitucional.

Manifestaram-se contra o parecer do relator apenas os deputados José Genoíno (PT-SP), Eduardo Valverde (PT-RO), José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Regis de Oliveira (PSC-SP).

Mais uma vitória em defesa da vida!


sexta-feira, 11 de julho de 2008

Recordando Loreto, 1995

Nunca participei de uma JMJ, mas em 1995 o Papa João Paulo II promoveu um encontro de jovens da Europa na Esplanada de Montorso, em Loreto (o texto desta homilia está em italiano). O Caminho Neocatecumenal levou também jovens da América. E lá estive eu.

Dentre as recordações desta viagem, muitas cenas marcantes. Hospedados em uma cidade próxima, fomos a pé até a esplanada, através de uma estrada pela qual passavam jovens de todo o mundo. Foi impressionante. Íamos cantando. O canto "Quero andar a Jerusalém", ficou-me impresso na memória:

Quero andar, mãããaaaaae, aáááaaahh Jerusalééeeem.

A comer as ervas. E saciar-me delas.

Foram muitas e diferenciadas emoções. A primeira viagem de avião. Roma, onde estivemos vários dias, e assistimos a uma das audiências públicas de João Paulo II nas quartas-feiras, com direito a assentos reservados na Praça de São Pedro. Vi toda a riqueza da Basílica de São Pedro, e por trás de uma porta de vidro o belíssimo túmulo de São Pedro. Visitamos diversas cidades e santuários italianos. Em Florença estivemos na Paróquia São Bartolomeu, em Scandicci, onde Kiko Argüello pintou o que deve ser a 1ª versão de sua célebre "Corona Mistérica".

De Assis ficou uma das imagens mais marcantes. O túmulo de São Francisco. São Francisco está lá, sepultado em uma coluna de pedra. Um túmulo humilde e impactante. Se a visita a um santuário é um encontro com uma presença, lá tive diante de mim a São Francisco, com sua singular e chocante vida na pobreza.

Tivemos um encontro vocacional com os iniciadores do Caminho em Porto San Giorgio, bem perto de Loreto, outro belíssimo lugar. Daquele encontro guardei o que disse Cármen Hernandez. A todos nós que lá estávamos, Deus chamava a uma grande missão.